Preciso de um poema
que alivie minha culpa,
minhas dores,
meu pesar.
Um poema que pinte o vazio
do que eu, feito criança,
mal consigo balbuciar.
Karingana ua Karingana
Era uma vez o que não era ...Era uma vez às vezes...Era outra vez o que não se via...Era de uma vez ...Era sem vez...Era e não era...
domingo, 26 de fevereiro de 2012
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Tenho procurado as linhas do Tempo
para delinear os contornos da tarde
o balanço dos barcos
a quina das incertezas
a dobradura dos livros
os acentos das palavras.
Preciso de todas das cores que pintam o silêncio,
os sábados e os cheiros da terra
(quando chove, quando seca).
O presente é generoso.
Preciso do dedal da minha avó
guardado numa lata preciosa
(lá no fundo da memória)
para bordar os desenhos
da fumaça do cachimbo da bisavó
onde vejo as lágrimas da minha mãe.
E uma agulha
que ilumine, afague,
transpasse a existência
e alinhe sentidos desenganados.
Que seja ponte, flecha e canção.
E no final ,
[se há final...]
uma enorme rede caleidoscópica
e delirante
que atiro de uma canoa vacilante sobre o mar
boca azul do destino
azulação do desatino
mareação de pensamento
no naufrágio da eternidade.
.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Roubaram minhas palavras
extraíram como dentes
apanharam como migalhas
minhas palavras mais dementes,
mais bem guardadas.
Levaram até o que esperei para ser dito
minhas palavras-retalhos
sem cor e sem forma
minhas palavras-quase
minhas palavras-quando.
Agora desdigo o quanto antes
e habito a língua do Tempo.
.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
(Aquilo que) Silencio
Para Matheus e Inácio.
Como dizer em um minuto
aquilo que levaria um ano?
Pré-palavra
Pós-tormento
o silêncio de uma vida inteira.
Guardo palavras amarrotadas sob a língua,
nas retinas, dentre os ossos,
à espreita do segundo-eternidade
(aquele que não amanhece).
Como dizer em um minuto
aquilo que levaria um ano?
Pré-palavra
Pós-tormento
o silêncio de uma vida inteira.
Guardo palavras amarrotadas sob a língua,
nas retinas, dentre os ossos,
à espreita do segundo-eternidade
(aquele que não amanhece).
domingo, 6 de novembro de 2011
Do desejo e outros diabos
Passei o dia recolhendo os estilhaços dos desejos
espalhados pela casa.
Na sala, cozinha,
banheiro. Tinha um desejo inesperado chupando minha escova de dente. Outro a se
roçar ao pé da mesa. Algum gemendo em algum canto ou perdido dentre minhas
calcinhas. Num exercício de paciência recolhi todos eles, carinhosamente. De
forma que, alguns eram fáceis de identificar como meus: roça-roça, assim-assim,
shhh-shhh. Outros seus: lambe-lambe, quero-quero, tic-tic-tum. Mas tinham
alguns tão dúbios, uns beijos e abraços, e salivas, e cheiros, e sussurros, uns
desejos-palavras, desejos-deleites, desejos-futuros, umas agitações, que aí eu
já não sabia. Nossos desejos desencontrados pela casa também já não sabiam o
que fazer.
Confesso que pensei um jogar tudo fora, pôr num saco
plástico preto numa alusão ao luto. Mas depois lembrei que quero uma vida
sustentável.
Alegria-sustentável, encanto-sustentável, humor-sustentável e
desejo-sustentável.
O problema é que a técnica da sustentabilidade é
dificílima devido à sua altíssima tecnologia (você, rapaz tão bem informado, já
deve ter ouvido falar trata-se da invencionática
ad infinitum). Felizmente fiz um curso EAD não-reconhecido pelo MEC porque
a técnica tem como princípio fundamental a falta de rigor e a fragilidade das
coisas.
O desejo também não pode ser submetido ao rigor
científico (não posso abri-lo com um bisturi). Ele tem fama de alazão por algumas
bandas, mas na verdade é criança, faz birra e beicinho e chora muito quando a
gente lhe nega qualquer coisa.
De modo a pôr um fim nesse drama que não combinava com
o azul da tarde fiquei montando estratégias: quem sabe colando os
meus com os seus, ou quem sabe adestrá-los (os meus ou os seus?) e num surto
cristão, quem sabe até castigá-los para que aprendam a se comportar?
Depois de ter bebido 5 litros de café e completamente paranóica em encontrar a solução, percebi o enorme silêncio. Não se ouvia mais gemido, zumbido, risada, palavrão. E não fiz mais nada, deixei os desejos adormecidos no espaço de nós dois.
sábado, 22 de outubro de 2011
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