quinta-feira, 16 de julho de 2009

Banho de rio em tarde quente



Eram três.
Eram três e uma cachoeira
As nudezes clareavam ainda mais o dia
eram peixes ariscos, iscas coloridas
contorcendo risos
A água muito escura escondia os enganos

Eram três corpos
que rolavam entre si
bocas sem direção
doces enganos sublimados em gemidos
estendidos sobre a pedra

O calor estupendo se confundia com os raios de sol
eram deuses brincando de luxúria:
Bocas, línguas, pescoços
naturalidade erotizada
corpóreos significados
dançando na descida do riacho

Iara ao ver caleidoscópio do desejo
sentiu seu corpo amolecer
e sentiu inveja.
Entoou uma canção
para expulsar Eva do paraíso.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Angoisse en bus



Numa dessas prosas fragmentadas num ônibus, com trânsito em horário de pico, nesse tempo de loucos, encontrei um amigo. Eu, com meu fone defeituoso que me transformava numa mono-ouvinte distraída, nem via a cidade me acenar pelas janelas. (Há pessoas que realmente valem a pena ser encontradas).

Meu amigo me disse entre sua barba rala: “A angústia é boa porque mobiliza o sujeito”. Mas eu de cá pergunto: E se ela estatelar o sujeito? Não confie tanto nessa angústia, ela chega sorrateira, se instala no peito e já era. Morre-se de amor, de tristeza e de angústia. Aliás, sabia que tristeza e angústia são diferentes? Diria que (sem querer de forma alguma incitar todos os meandros que tal comparação traz): a tristeza está para o erotismo assim como a angústia está para a pornografia. Sabia? Porque eu não sabia...só vim descobrir por agora.

E não tem festa do Bembé, samba, nem forró, esmalte carmim, nem beijinhos, nem Jazz que dê conta! Até fetuccini ao molho de camarão tentei. Não funcionou. Porque Belchior acha que esse desespero só craquelava em 1973?

Me rasgo toda por dentro tentando me libertar dessa vertigem de inércia. Os dias andam se debatendo sem sentido e um calendário permanente me tortura enquanto durmo. Respondo ao amigo: Tudo bem que ela me mobilize, contanto me agarre pelos cabelos e me beije depois!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A devoradora de traças





Alice tinha por edificação a dúvida. Colecionava enigmas vulgares (Qual o sabor das borboletas amarelas?). Estendida sobre panos cultivava pedras na praia e regava os pés. Despia a Solidão, beijava-lhe a boca, apertava-lhe os seios...Solidão gemia “óóóó”, fazendo eco sobre as ondas.

Preferia amar o vento que lhe assanhava toda, mexia-lhe as saias e assobiava promiscuidades risonhas ao pé do ouvido.

As pontas dos dedos acariciavam canções que ainda nem existiam. Por vezes, em meio à multidão, se imaginava nua entre as pessoas desapercebidas. Às vezes queria domar o mundo, noutras ser levada por ele.

(Como tão pequeno corpo comporta uma alma?)

Pensamentos enluarados enfeitavam seus sonhos.

(Não acredites em inocência em inocência, meu filho.)

Alice era o cão.
Enfiava palitos nas bundas das formigas!

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Onde não se escuta o riso do Erê



"Que tempo mais vagabundo
Esse agora
Que escolheram pra gente viver?" *

Tento me explicar aos poucos para ser entendida, já me cansei desse texto, mas posso sim falar uma última vez. É esse seu olhar quando te vejo. Às vezes saio de casa e você está a dormir no pé da ladeira, em sua face existem milhares de rostos, todos marcados como culpados. Você denuncia calado, mas está aí, qualquer um pode ver sua solidão, suas roupas rasgadas, seus pés grossos. O sobressalto em seu peito quando avista as luzes da polícia. A dor no estômago quando escuta os gritos perdidos na madrugada.

Um moleque que masca chiclete para a exposição de Cosme e Damião no centro da cidade, sentado em seu colchão velho e sem forro, que causaria crise alérgica a qualquer classe média.
O tilintar das poucas moedas acompanha seus passos. O dinheiro é Deus. É ele que determina a fome ou sua saciedade. O Gentileza falou em “capetalismo”, o capeta do capital. Será deus ou diabo?

O que me resta é essa dor costumeira que quase já não se sente, essa angústia de um conformismo lustrado por meninos de esquina. Esse cheiro de urina diz muito sobre essa cidade. É exatamente isso, esse cheiro de urina num quarto de paredes umedecidas, pobreza e esse rancor classe média.

Os meninos exibindo suas feridas no sinal e no centro da cidade uma eclética exposição de Cosme e Damião.

* Milagres (Cazuza/ Frejat)

Flornoasfalto

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Do desejo (trechos)




I

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

Hilda Hilst

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Sopro



recomeço das cinzas
do bolor do inútil
do desespero
da euforia
da loucura
do torpor...
enfim, dessa gradação atordoada.

A vontade é mesmo de gritar, de abraçar
dançar o ritmo mais inescrupuloso
mostrar minhas pernas,
o calor das minhas coxas
te xingar, te bater
beber e rir com você
porque nada nesse mundo se explica
(as explicações são todas vãs!!)

não quero passar como mais um
cinzento e triste
prisioneiro da própria vida
como um corpo morto numa cova
eu quero muito
eu quero tudo
eu quero mais

Quero cantar a louca canção que emana convulsiva dos meu lábios
rir das minhas próprias tragédias e fracassos e seguir em frente
lúcida e cansada
um cansaço feliz dos que não se deixam abater

Poderia te contar as mil e uma ficções sobre mim
mas fique com esta:
desgarrada do que condena,
meu destino é o vento
a luxúria de toda a casualidade

Amar, meu bem, é uma vulgaridade!

segunda-feira, 2 de junho de 2008

O Encantador de Cachorros

Num dia de chuva qualquer os transeuntes se flagaram num delírio de asfalto.
Um senhor andava pelas ruas da Piedade cercado de cachorros vadios enlameados pela água que saltava das poças.
A chuva fina dava um ar de sono à cena.
Fotografei com palavras.