quarta-feira, 21 de abril de 2010

Acabou Chorare



Todas as manhãs ele bica meus sonhos
cedo, muito cedo
estica meu riso feito lençol no varal
Traz no peito o sol
pousa-se na minha janela
E agora vive a incendiar meus dias.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Ao léu


Todos os dias ficava na mesma esquina. O mesmo olhar parado procurando as estrelas que o céu nublado escondia. Dentre os dedos gelados parecia fumar eternamente o mesmo cigarro. Se o silêncio é abismo e palavras são navalhas, lançava-se em queda-livre com tímida coragem.
Mergulhado na dor se protegia dela.

Arqueologia do Toque


I
Uma noite despretenciosa
nem longa, nem curta.
Exata.
Na justa medida dos seus braços.
E daqueles beijos de alambique.
Eu já nem morria de medo
dos seus olhos miúdos de pássaro invocado.
Eu sorria
enquanto você me tocava sem as mãos
enquanto dançávamos sem chão.

II
Apreendi a eroticidade
De naufragar em fragmentos de assobios e canções.

III
Beijos efêmeros que se ardem de não esperar:
A eternidade é o Tempo a rir-se de nós.

IV
A minha boca muito cansada de esperar
Quer cantar suas canções
Recitar seus versos
E comer suas poesias.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Entrega


Faz de mim rio
Assobio
Canção
Trovoada
Qualquer coisa que queira chamar de seu.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Banho de rio em tarde quente



Eram três.
Eram três e uma cachoeira
As nudezes clareavam ainda mais o dia
eram peixes ariscos, iscas coloridas
contorcendo risos
A água muito escura escondia os enganos

Eram três corpos
que rolavam entre si
bocas sem direção
doces enganos sublimados em gemidos
estendidos sobre a pedra

O calor estupendo se confundia com os raios de sol
eram deuses brincando de luxúria:
Bocas, línguas, pescoços
naturalidade erotizada
corpóreos significados.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Angoisse en bus



Numa dessas prosas fragmentadas num ônibus, com trânsito em horário de pico, nesse tempo de loucos, encontrei um amigo. Eu, com meu fone defeituoso que me transformava numa mono-ouvinte distraída, nem via a cidade me acenar pelas janelas. (Há pessoas que realmente valem a pena ser encontradas).

Meu amigo me disse entre sua barba rala: “A angústia é boa porque mobiliza o sujeito”. Mas eu de cá pergunto: E se ela estatelar o sujeito? Não confie tanto nessa angústia, ela chega sorrateira, se instala no peito e já era. Morre-se de amor, de tristeza e de angústia. Aliás, sabia que tristeza e angústia são diferentes? Diria que (sem querer de forma alguma incitar todos os meandros que tal comparação traz): a tristeza está para o erotismo assim como a angústia está para a pornografia. Sabia? Porque eu não sabia...só vim descobrir por agora.

E não tem festa do Bembé, samba, nem forró, esmalte carmim, nem beijinhos, nem Jazz que dê conta! Até fetuccini ao molho de camarão tentei. Não funcionou. Porque Belchior acha que esse desespero só craquelava em 1973?

Me rasgo toda por dentro tentando me libertar dessa vertigem de inércia. Os dias andam se debatendo sem sentido e um calendário permanente me tortura enquanto durmo. Respondo ao amigo: Tudo bem que ela me mobilize, contanto me agarre pelos cabelos e me beije depois!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A devoradora de traças



Alice tinha por edificação a dúvida.
Colecionava enigmas vulgares
(Qual o sabor das borboletas amarelas?)
Estendida sobre panos
cultivava pedras na praia e regava os pés.
Despia a solidão e beijava-lhe a boca
fazendo eco sobre as ondas.
Preferia amar o vento que lhe assanhava toda,
mexia-lhe as saias
e assobiava promiscuidades risonhas ao pé do ouvido.

As pontas dos dedos acariciavam canções
que ainda nem existiam.
Por vezes se imaginava nua entre as pessoas desapercebidas
e então dançava sozinha na calçada.
As vezes queria domar o mundo
que nem se pega bicho brabo nas unhas,
noutras ser levada como areia fina pela brisa.
Pensamentos enluarados enfeitavam seus sonhos.

Mas Alice era o cão!
Enfiava palitos nas bundas das formigas.