segunda-feira, 24 de maio de 2010

A Menina do Vestido-Bolacha-Maria


a Zéu Britto

Inquietazinha sob minhas pálpebras
aquela menininha naquele vestido.
Um átomo a mais da farinha de trigo
Uma encantadora de biscoitos.

Sofia, Valentina, Catarina
Marilan, Mabel, Mirabel,
peraltice, danadez , jujubinhas
tudo era capricho da vida
naquela miniatura pulsante do existir.

domingo, 23 de maio de 2010

Descaso


Lembro-me perfeitamente daquelas flores rosadas, tendo o teto branco ao fundo, realizando uma parábola e no ar e caindo nas minhas mãos céticas. Foi aí que começou toda a catástrofre. Ao contrário do que diz a tradição, foi ali que todos os meus problemas começaram. Eu as trouxe para casa e coloquei num vaso com água gelada e açúcar, mas essas flores poséticas nem se importaram. Juro que a culpa não foi minha, até perguntei na ocasião o que lhes parecia melhor "açúcar ou adoçante?", mas de nada adiantou. Elas padeciam irreversivelmente a cada batida do ponteiro dos segundos do relógio-herança-do-meu-tio-avô.
Assim começou o meu fim. A direção da vida passou a girar ao contrário. E quando dormia tinha sempre o mesmo pesadelo: flores estragadas e ensanguentadas caíam sobre mim, inundavam minhas pernas e me enjoava aquele cheiro de vermelho ferrugem.
E então eu acordava extremamente angustiada.
Depois eu mesma passei a sangrar constantemente. Não como sangram os poetas, os amores ou qualquer coisa metafórica. Era sangue-lamento de fêmea e que não obedecia ciclo lunar, solar, nenhuma lógica aparente regia essa correnteza. Escorria pelas minhas pernas e deixava um rastro como os pesadelos anunciaram. E então essa dor se tornou cíclica, nessa parte já não lembro onde ela começava, nem como, nem que horas. Meus olhos se apagaram, não enxergava mais o meu tempo-herança-perdida.
As pessoas quase já não me comprimentavam, comentavam entre si o quanto eu estava desgastada, cansada, agoniada, acabada, e no meio disso tudo um dia ouvi "Louca! Olha a doida!". Essa mentalidade interiorana limitada e retrógrada, as pessoas não entendiam minha metafísica de canteiros! Me apropriei do jardim da maior praça que ficava no centro da cidade. Passava grande parte do tempo molhando, conversando e cantando com as plantas. As favoritas eram as cirandas, eu via como elas sorriam colorindo para mim. E isso me acalmava tanto que dei para passar os dias e as noites entre begônias, azaléias e marias-sem-vergonha.
Já não comia quase nada, bebia água quando chovia, algo em mim havia se modificado. Fui drão, brotei em meio aquela dor que me gelava a alma, torturava-me os sonhos. Tudo que em mim era firmeza penetrou na terra, virou raiz. Fotossintetizei o que era carbono e tormento, fumaça e lamento, lançei o que era vida no ar e agora namoro com as viuvinhas pequeninas e pintadinhas que pousam na ponta do meu nariz.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Eterna Brincadeira


Meu pai, eu andei pensando que quando eu morrer eu posso jogar gude com a morte. Posso subir no pé-de-feijão do João e se quando chegar lá em cima o gigante me atormentar, eu salto em doce queda-livre sem sombrinha e ainda por cima contando os passarinhos do ar. Talvez eu voe. Posso comer algodão doce e virar cotonete. Vou nadar no fundo do mar sem roupa de mergulho e escovar os dentes do tubarão. Ao invés de dormir vou ficar decalcando as estrelas e vou poder assistir infinitamente as manhãs. Talvez eu invente cores que tenham sons. Posso ser mágico e enfiar minha cabeça na boca do leão. Vou fazer uma gangue de almas penadas pra assombrar meus primos que me batem. Vou atravessar descalço o deserto de areia quente, melhor, vou correr até o japão sem cansar, rolar na neve sem casaco. Vou mastigar as flores mais exóticas do mundo e fazer um jardim na minha barriga.
Meu pai, eu andei pensando...
o corpo não é uma prisão?

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Ad Infinitum


Queria ser uma pipa, um balão.

Uma bomba.
Uma alma big-bang.
Explodir toda essa angústia diminuta
e criar estrelas faceiras,
cometas embriagados,
galáxias inteiras bordadas em tons de azul.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Acabou Chorare



Todas as manhãs ele bica meus sonhos
cedo, muito cedo
estica meu riso feito lençol no varal
Traz no peito o sol
pousa-se na minha janela
E agora vive a incendiar meus dias.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Ao léu


Todos os dias ficava na mesma esquina. O mesmo olhar parado procurando as estrelas que o céu nublado escondia. Dentre os dedos gelados parecia fumar eternamente o mesmo cigarro. Se o silêncio é abismo e palavras são navalhas, lançava-se em queda-livre com tímida coragem.
Mergulhado na dor se protegia dela.

Arqueologia do Toque


I
Uma noite despretenciosa
nem longa, nem curta.
Exata.
Na justa medida dos seus braços.
E daqueles beijos de alambique.
Eu já nem morria de medo
dos seus olhos miúdos de pássaro invocado.
Eu sorria
enquanto você me tocava sem as mãos
enquanto dançávamos sem chão.

II
Apreendi a eroticidade
De naufragar em fragmentos de assobios e canções.

III
Beijos efêmeros que se ardem de não esperar:
A eternidade é o Tempo a rir-se de nós.

IV
A minha boca muito cansada de esperar
Quer cantar suas canções
Recitar seus versos
E comer suas poesias.