sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Giz de calçada


Costuro as ruas calmamente
mas procuro um método para assanhar os segundos.
Periquitos andam tronchos nas praças
me pergunto se não se cansam de tanta verdeza.
Sinto tanta saudade
você não suporta mais essa palavra.
Eu a respeito profundamente,
mesmo quando ela entra em estado de pano de chão.
Em estado de asma.
Em estado de lesma.

Meu mestre fazedor de pipas
me ensinou a arte de desgastar palavras.
Ele transformava gavetas em begônias.
Então agora sentada no tamburete da paciência
passo horas a fio a arear a saudade:
macadame, tomate seco, panela de barro,
olho de vidro, soluço, violoncelo,
cais, cumbuca, canto de grilo.
Até que ela se torne um vir a ser
e todas as possibilidades possam morar na lesma.
Até que a asma vire cigarra.

A decadência é para os sem-imaginação.
Eu quero é desenhar nas calçadas.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010



Estado de gravidez crônica e generalizada.
Trazemos inscritas todas as pessoas do mundo.
O coração é o coração de todos.
Miro no espelho e vejo mil faces.
O amor carrega em si a força de todas as crianças,
mulheres, homens, velhos, sereias,
escudo e lança
anda no cavalo de São Jorge.
O amor não aguenta conversa fiada com a moral,
é vagabundo-vagamundo,
se masturba na esquina
e anda em zig-zag no meio da rua.
Balança mas não cai.
O amor é diabético
e insiste em melar o queixo de sorvete.
Mastiga o dicionário,
quer engolir os 5 continentes,
e chora de azia e indigestão.
O amor se vicia em crack
quando não consegue se esparramar na multidão.
O amor quer explodir e virar chuva,
encharcar as terras de generosidade.
O amor quer se estrebuchar no canto dos bêbados.

O amor são as pessoas.

domingo, 1 de agosto de 2010

Brucutú


Com meu graveto solitário
desenho um garoto de côco na areia doce
enquanto o cais ao longe me embalança
Ê ouricurí, babaçú, catolé!
Cantarolo minha maluquice
como quem lança pedra miúda no ar:
beijú, licurí, taboca,
tainha, lêlê, picolé,
pasárgada
leve 10 por 1 real
me leve por 10 centavos
me leve...

Ai menino,
que minhas dores nem maracujá acalma,
nem me distrai os vermes da solidão.
Se pudesse atracaria meu barco nesses olhos mundanos
te enfeitaria inteiro com bandeirolas coloridas
que dançariam safadinhas ao vento
faria festinha pra você gostar.

Tudo isso é muito mais que eu
ínfima menina,
meninotazinha,
que as vezes gostaria de ser cocada
derreter entre as mais generosas bocas
perecer entre os mais raivosos dentes.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

SOBRE A MISÉRIA DO PENSAMENTO

O COMPROMISSO É A MISÉRIA DO PENSAMENTO.
VADIAGENS FILOSÓFICAS TEM OUTRA DESENVOLTURA,
COLOCAM RISO NO CONCEITO DA CARA DURA,
E, DE TRAVESSURA EM TRAVESSURA,
TROCAM TEORIA POR POESIA,
CIÊNCIA POR LITERATURA.

Álamo Pimentel

terça-feira, 27 de julho de 2010

Trancelim



pé de pato, mangalô, 3 vezes,
pé de pato, mangalô, 3 vezes,
pé de pato, mangalô, 3 vezes

Meu tesourinho
são besouros e lantejoulas
um dedal de brilhantes
uma saia de chita rodada
blusa branca caída sobres os ombros
meus colares, meus cordões
um vidrinho com perfume secular
um broche de flor
e a borra de café que minha madrinha guardou
desde o dia que nasci.

O batuque no meu peito
é a herança que posso legar a alguém.
Esse pulsar de um samba louco e desenfreado
num dia de chuva
Foi batendo o pé na terra
que vovó me ensinou a sambar
que vovó me ensinou a sambar
Um pezinho de arruda, uma pimenteira,
e meu vira-lata pé-de-vento na janela.

domingo, 25 de julho de 2010

Aquarelável



" E as borboletas do que fui pousam demais por entre as flores do asfalto que tu vais..."
(Belchior)
"Dentro do peito esse fruto apodrecendo a cada dentada..."
(Jards Macalé/ Duda)

Ai que o tempo corre pintando seu manto colorido no vento. Ai que tudo é muito pouco e nada basta, nada sacia, nada adianta. Sem culpa, nem vela. Cantaremos canções com palavras trocadas porque tudo é muito dúbio e disso não foge o amor. Há de se ter respeito às risadas lançadas no ar. Vamos beber as possibilidades que escorrem da madrugada. Olha a vida com seu vestido esvoaçante dançando na esquina enquanto o sol atravessa os prédios. O mar escancarado para o azul lê minha mão. Deixa eu te aprender, deixa eu te esquecer. Vamos saltar o finito como um pula-corda, uma amarelinha e decalcaremos o infinito. Vamos fazer coisas úteis como biscoitos de manteiga, bolhas de sabão, cosquinhas. Um passarinho me contou que tudo que é sólido desmancha no ar.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Crônica da Mulher Assassinada


"Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor..."
(A Flor e o Espinho de Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Alcides Caminha)

Era rosa, era flor.
Era princesa, deusa e rainha.
Era, Era, Era ô.
Amélia ô.
Virgem-maria-beatificada-coisificada-estuprada-mutilada.
Ave maria esvaziada de graça.
Ó senhora reguladora dos meus prazeres,
dos meus desejos.
Padroeira do meu desemprego,
da minha frustrante compulsão materna.
Amém.

Uma mulher tem de saber seu lugar.
Abre as pernas que eu meto:
Faca, tesoura, bala, punhal.
Tudo isso porque dizem que ela,
ela, mas ela é prima de Isabela.
Chega!
Nossa Senhora Coisificada,
cortarei os paus da trindade.
Sem pai, sem filho,
nem espírito pretensamente universal.
Montarei a minha vagina dentata
sem hipocrisia monoteísta:
Eva, Genir, Simone de Beauvoir,
Nginga, Pagu nos livrem de todo mal.
Salvem as meninas que gozam.
Salvem as putas de esquina.
Salvem as que não querem ser mães.
As marias-ninguém.
As infiéis.
As loucas.
As mães solteiras.
As lésbicas.

Não permitam que siliconizem minha alma.
Não permitam, minhas senhoras,
que silenciem as que gritam,
que matem as que não se subjugam.