sábado, 24 de maio de 2008

Travesseiro importado de pena de ganso

(passada de língua para umedecer os lábios)

Uma inquietação se derrama sobre os becos da cidade

Incerteza que desafia as probabilidades

Insandice que se derrama pelos olhos

Escorre pela boca

Delírio-de-manga que vaza pelos cotovelos

Levanto no meio da madrugada

Um anti-sono estranho se abate sobre mim

A lucidez do avesso me instiga

Saudade de nem-sei-o-quê...

Coloco as roupas pra lavar

E a máquina me traduz o movimento do mundo

Por onde andarão as estrelas voadoras?

O que se abafa é o que mais grita

nesse peito abafado.

quarta-feira, 12 de março de 2008

O Tempo e as Flores


*Ao menino que dorme num galho da mangueira da ilha Itaparica

"Ê Tempo makura de ilê
Ê Tempo makurá tátá
É uma kuraxó

É um makuriá"


Tenho uma casinha pro lado de lá
atravessando a baía, seu moço
Não é grande, pouca coisa,
mas é meu .

Minha casinha tem um quintal de terra preta
terra preta cheirosa

e que é a razão de minhas unhas estarem quase sempre escuras

de ficar alisando a pele da terra
.

Ganhei de presente uns galhos de carambola.
Procurei saber da possibilidade de se arranjar um embondeiro

pra plantar pelo lado de lá,
eu moraria dentro de um.


Mas eu estou te escrevendo por outro motivo.

Comprei umas sementes,

achei uns
cactos exóticos
(embora não faça idéia do que seja um
cacto exótico)
plantas carnívoras,

achei umas tais sementes de
tamarillo
uma fruta de um país imaginado e esquecido.

Ora-pro-nobis
comprei por causa do nome:

floresce de janeiro à abril.

Lembrou minha avó cantando na trezena de Santo Antônio.
Essa planta tem ladainha.


E, claro,
flamboyants.
Acho que
são o sorriso de Ossaim.
A convulsão das cores.

A inspiração dos fogos de artifício não-artificiosos.

Já ouviu falar?

É coisa de americano...


Comprei um
bonsai,
aquelas plantas pequeninas
Se duende existe com certeza
que arma rede embaixo de bonsai!

Mas as plantas são amantes do tempo e da terra.

Acho que também somos, mas esquecemos

(são muitos os presentes e as catástofes do esquecimento...)


Guardei as sementes na barriga da terra hoje
.
Era fim de tarde,
beijei o chão
numa promessa de lealdade à espera.
Não sei e não me importa quanto tempo elas precisarão

para crescer de forma que eu possa abraçá-las,
dormir embaixo das grandes
e cochichar ao ouvido das pequenas

Mas se você quiser esperar comigo
vai ter um dia que seu telefone vai tocar
(porque estarei feliz e elétrica demais para escrever)
te direi que minhas plantas, flores e árvores estão lindas

que minha casinha está imersa no colorido do sorriso do tempo.

E vou ficar muito orgulhosa quando você chegar

e achar bonito também.


A gente pode até acender uma fogueira
e dançar aquela ciranda da rosa vermelha outra vez.
Podemos caminhar até os manguezais.

Cantarei minhas impressões pra você.


Me dê tempo

e te darei flores.











terça-feira, 11 de março de 2008

Lembranças Imaginadas


"Quando eu morrer
toca Idalina pra mim
toca Idalina pra mim
toca Idalina pra mim ..."


Tenho avidez por memórias descompassadas.
Agarro-as como os colares de licurí
que presos ao pescoço
adocicavam na infância
minha boca nas feiras de sábado.
O que vivi e o não-vivido
se insinuam numa obscenidade
de crianças que desejam se tocar.

Aquelas cascas de verduras jogadas
sobre as raízes da amendoeira
do jardim da frente.
O pé de alfazema
que se molhava a cada fim de tarde.
E eu que não entendia esses ritos.

O silêncio é uma forma de amar.
E eu que não entendo mais nada...
-Entender serve pra quê?
Sou quase mais feliz quando não entendo.
Como os homens que apontavam para as estrelas
sem saber direito o que eram de fato.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

(Confetes de) Resto de festa



Colapsos de rimas insuflam a garganta
fazendo dançar a língua
Beijos-palavras que se chocam com o silêncio
Num único toque moram todos os outros:
NADA DEVE SER ESQUECIDO
A MEMÓRIA É O BORDADO DO TECIDO
Meu maior temor é ter imagens rasas
Linho branco sem gravata vermelha
vazio de malandragem.
Quero bordar com sangue as imagens da discórdia,
e cravar miçangas prateadas nas imposições,
para que meus tecidos trágicos não se calem para ninguém.
Principalmente à mim.
Nós, esquecedores profissionais de nossas próprias dores.
O meu riso é a penetração destemida da agulha
em prisões de casas de botões
e eu não esqueço, nem poderia
Quantas vezes é preciso se desconhecer para se encontrar de volta?
O dedo espetado espetaculariza o tecido
e meu olhar seco no seu olho virado se mesclam num cintilar débil
de confetes lançados por bêbados
nos primeiros minutos do amanhecer
do último dia de carnaval.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Cafeína


O calor do sol inundou o lilás das persianas
e a luz beijando meu sono
amanheceu mihas pálpebras.
Meu corpo lento procurou suas mãos
sedentas, delicadas
no abismo da minha cama.

Minha cabeça de leoa indócil
Minha camiseta pelo avesso
descombinando com a calcinha
e a saudade que se abateu sobre mim.

Resolvi coar seus olhares
"Eu via a luz da luz do preto dos seus olhos" *
beber seu gosto
A água fervia e seu cheiro
Negro, nêgo, neguinho
em sua ausência me entorpecia

Sentada no chão frio de xadrez
bebi o que me restou de você
numa manhã nublada
num dia de loucos
num tempo de nada.

*
trecho de "cego com cego" de Tom Zé e Wisnik



terça-feira, 2 de outubro de 2007

Devaneio de 5 centavos


Os dias ensolarados de Agosto anunciam os dias azuis de Setembro. Entendi enquanto meus pés atravessavam uma faixa de pedestres e olhava para o seu sorriso multicor.
As vezes coisas estranhas acontecem. Ainda bem.
O que quero são fragmentos de canções, objetos esquecidos e beijos atormentados. Quero a profundidade da insignificância. Há quem não entenda meu delírio, minha alucinação descompassada. Meu tesouro é um colar de pérolas de bolhas de sabão.
A magia do banal me absorve completamente como uma criança vencida por um torrão de açúcar. Há de ter engenho micro-caleidoscópico para entender a arte da magia cotidiana.

(Então você, sem pretensão nenhuma, nem de nada, me arrasta para o Plano Inclinado. Simples assim: ao invés do elevador o plano. Eu entro me sento, você sussurra bobagens fundamentais para que eu sorrir. E meu corpo ver passar como uma nuvem aquela parte da cidade, aquela cabine de vidro, aquela cena do filme de Araripe Júnior.)

Felicidade besta, e por isso mesmo boa e bonita. Alegria de andar de roda-gigante, de acertar o papel no cesto, de ver a primeira estrela no céu. Tento em vão decifrar seu rosto mas previsões não importam. Racionalmente você jamais me daria um presente de 5 centavos.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Desconfigurado.....

Roman Moderne - Maison de mon rêve
Fernando Figueiredo