segunda-feira, 14 de maio de 2012




Demorei muito tempo para descobrir que não sabia ler.
Tanto tempo que nem me lembro o quanto.
Vinte anos na escola, trinta e cinco na universidade, setenta e sete vezes reprovada. Disciplinas e mais disciplinadas transbordavam desconhecimento pelos históricos escolares. Afundei em livros, revistas, jornais, receitas, dicionários, tratados, embalagens, bilhetes, correspondências, placas de caminhão, documentos, bulas, cimento, celulares, legendas, cartas de amor, TV e internet.
E só então descobri minha triste condição de analfabeta funcional - é o que dizem quando se possui uma graduação completa.
Mas só percebi tudo isso quando fui atravessada de sentido.
Quando uma palavra desajustou o meu juízo. E vi os olhos da água quando ferve. Os verdes que habitam no verde. A curva das horas.
Talvez tenham sido borras de dias acumulados que se explodiram todos de uma vez ou o susto desconfiado de uma vida inteira.
Uma garatuja do meu pensamento se apresentou garranchuda no meio do terreiro e dançou como dançam os santos, os loucos, os deuses. Totonha olhava tudo cachimbando num tamburete. Nada dizia, nem precisava. Silêncio é a oração das palavras que ainda não existem. Acho que não teve segredo que as pedras do Jequitinhonha não tenham contado pra ela.
Depois desse dia perdi muitos e muitos pontos e voltei à pé. O vento, assovio do mundo, soprando na minha cabeça. Assuntei com Totonha que fumaçou infinitamente com aqueles olhos grandes.Só restou o risco da poeira no ar.




sábado, 17 de março de 2012












O maestro costura
intervalos de silêncio
e dança música nenhuma.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Poema da necessidade

Preciso de um poema
que alivie minha culpa,
minhas dores,
meu pesar.


Um poema que pinte o vazio
do que eu, feito criança,
mal consigo balbuciar.



terça-feira, 20 de dezembro de 2011



Tenho procurado as linhas do Tempo
para delinear os contornos da tarde
o balanço dos barcos
a quina das incertezas
a dobradura dos livros
os acentos das palavras.

Preciso de todas das cores que pintam o silêncio,
os sábados e os cheiros da terra
(quando chove, quando seca).
O presente é  generoso.

Preciso do dedal da minha avó
guardado numa lata preciosa
(lá no fundo da memória)
para bordar os desenhos
da fumaça do cachimbo da bisavó
onde vejo as lágrimas da minha mãe.

E uma agulha
que ilumine, afague,
transpasse a existência
e alinhe sentidos desenganados.
Que seja ponte, flecha e canção.

E no final ,
[se há final...]
uma enorme rede caleidoscópica
e delirante
que atiro de uma canoa vacilante sobre o mar
boca azul do destino
azulação do desatino
mareação de pensamento
no naufrágio da eternidade.

.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011



Roubaram minhas palavras
extraíram como dentes
apanharam como migalhas
minhas palavras mais dementes,
mais bem guardadas.


Levaram até o que esperei para ser dito
minhas palavras-retalhos
sem cor e sem forma
minhas palavras-quase
minhas palavras-quando.


Agora desdigo o quanto antes
e habito a língua do Tempo.


.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

É preciso esculpir a insônia bruta.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

(Aquilo que) Silencio

Para Matheus e Inácio.

Como dizer em um minuto
aquilo que levaria um ano?

Pré-palavra
Pós-tormento
o silêncio de uma vida inteira.

Guardo palavras amarrotadas sob a língua,
nas retinas, dentre os ossos,
à espreita do segundo-eternidade
(aquele que não amanhece).