quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

(Confetes de) Resto de festa



Colapsos de rimas insuflam a garganta
fazendo dançar a língua
Beijos-palavras que se chocam com o silêncio
Num único toque moram todos os outros:
NADA DEVE SER ESQUECIDO
A MEMÓRIA É O BORDADO DO TECIDO
Meu maior temor é ter imagens rasas
Linho branco sem gravata vermelha
vazio de malandragem.
Quero bordar com sangue as imagens da discórdia,
e cravar miçangas prateadas nas imposições,
para que meus tecidos trágicos não se calem para ninguém.
Principalmente à mim.
Nós, esquecedores profissionais de nossas próprias dores.
O meu riso é a penetração destemida da agulha
em prisões de casas de botões
e eu não esqueço, nem poderia
Quantas vezes é preciso se desconhecer para se encontrar de volta?
O dedo espetado espetaculariza o tecido
e meu olhar seco no seu olho virado se mesclam num cintilar débil
de confetes lançados por bêbados
nos primeiros minutos do amanhecer
do último dia de carnaval.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Cafeína


O calor do sol inundou o lilás das persianas
e a luz beijando meu sono
amanheceu mihas pálpebras.
Meu corpo lento procurou suas mãos
sedentas, delicadas
no abismo da minha cama.

Minha cabeça de leoa indócil
Minha camiseta pelo avesso
descombinando com a calcinha
e a saudade que se abateu sobre mim.

Resolvi coar seus olhares
"Eu via a luz da luz do preto dos seus olhos" *
beber seu gosto
A água fervia e seu cheiro
Negro, nêgo, neguinho
em sua ausência me entorpecia

Sentada no chão frio de xadrez
bebi o que me restou de você
numa manhã nublada
num dia de loucos
num tempo de nada.

*
trecho de "cego com cego" de Tom Zé e Wisnik



terça-feira, 2 de outubro de 2007

Devaneio de 5 centavos


Os dias ensolarados de Agosto anunciam os dias azuis de Setembro. Entendi enquanto meus pés atravessavam uma faixa de pedestres e olhava para o seu sorriso multicor.
As vezes coisas estranhas acontecem. Ainda bem.
O que quero são fragmentos de canções, objetos esquecidos e beijos atormentados. Quero a profundidade da insignificância. Há quem não entenda meu delírio, minha alucinação descompassada. Meu tesouro é um colar de pérolas de bolhas de sabão.
A magia do banal me absorve completamente como uma criança vencida por um torrão de açúcar. Há de ter engenho micro-caleidoscópico para entender a arte da magia cotidiana.

(Então você, sem pretensão nenhuma, nem de nada, me arrasta para o Plano Inclinado. Simples assim: ao invés do elevador o plano. Eu entro me sento, você sussurra bobagens fundamentais para que eu sorrir. E meu corpo ver passar como uma nuvem aquela parte da cidade, aquela cabine de vidro, aquela cena do filme de Araripe Júnior.)

Felicidade besta, e por isso mesmo boa e bonita. Alegria de andar de roda-gigante, de acertar o papel no cesto, de ver a primeira estrela no céu. Tento em vão decifrar seu rosto mas previsões não importam. Racionalmente você jamais me daria um presente de 5 centavos.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Desconfigurado.....

Roman Moderne - Maison de mon rêve
Fernando Figueiredo

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Poemas não são para serem publicados


Poemas não são para serem publicados
poemas são Drag Queens
rolando piteiras em puteiros
ou somos nós,
poetas velhos de caras borradas
poetas de cinco centavos
Poemas não são para serem publicados
Poemas são para serem escritos
às vezes rasgados
às vezes guardados

Podem ser confessionais,
imorais de vanguarda
Podem ser apenas
a voz humílima do guarda
Podem ser criança
Mas em Geral
são sem esperança
de serem publicados
Poemas custam caro
e não fazem o mesmo efeito de um choque
não fazem o efeito de um baseado
Poemas não servem para trepar
nem nada

Nem sequer tente publicar seus poemas
faça-os voltar calados às gavetas
Com eles ninguém se meta
Dormirão como dormem os drogados:
tristes, gelados, pesados
mas serão sempre únicos
Sempre ineditamente mediúnicos
Sempre salvos das graças das prebendas
Sempre coisas pudendas (ainda que sujos)
Poemas, sempre úmidos
Noviços, fim de feira
maus de venda e de vida.
Não são nem mesmo um incentivo à leitura,
pois quem vai ler linhas quebradas
oriundas de alma idem?
Renata Pallottini

terça-feira, 10 de julho de 2007

Não entendo


Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
Clarice Lispector

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Aprendiz de Feiticeiro


Era um velho muito velho que morava numa casa de palha
na beira da casa ele tinha velami mikiçangui, mikiçangui velami
no seu alanguê .

O tempo apagou as lembranças de minha cabeça.
Antes eu sabia das coisas que lembrava, mas agora tudo o que sei é o que não lembro.
Não lembro, por exemplo, de ter conhecido um homem de cabelos muito longos como os de uma santa, e que tinham a cor de um entardecer tranquilo. Os seus olhos contavam cinco anos e sorriam.
Trazia dependurado uma flauta, uma gaita, um pandeiro, castanholas, uma rabeca e uma caixinha de fósforos. Quando dormia cantava músicas em mandarim, vezinquando roncava poesia.
Não lembro de um poema ele roncou certa noite e acordou toda a vila do Cruzeiro:
Para enxergar as coisas sem feitio, é preciso não saber nada.
É preciso entrar em estado de árvore.
É preciso entrar em estado de palavra.
Só quem está em estado de palavra pode enxergar as coisas sem feitio.

Ele não tinha nome. Chamavam aprendiz de feiticeiro e ele chacoalhava sua caixinha de fósforos e fazia uma batucada que só terminava no outro dia.
Ele me ensinou a chegar no começo. O começo é o esquecimento e tudo o que não lembro, mas que ao mesmo tempo é tudo o que sei e que guardo de mais valioso. O nada é o barro do qual se modelam todas as coisas. O elefante e o gabiru.
Depois de alguns anos sua barba já alcançava os joelhos quando um pássaro verde com o peito estufadinho em azul resolveu se alojar e fazer um ninho. No início ele ficou muito sério, não dizia palavra, o passarinhotambém não cantava. Depois foi uma algazarra. Dentro de um mês ele tinha cinco ninhos emaranhados naquela barba imensa e eu acabei perdendo a conta diante da reprodução animada dos cantantes.
Como já disse só sei do que não me lembro. E isso é tão calmo e tranquilo que quase já não recordo exatamente o que escuto ou a textura do que penso. Mas é tão lindo seu moço: quando eu fecho os olhos vejo a cor das palavras.